quarta-feira, 25 de maio de 2016

História da Igreja #2: Plenitudo Temporis

http://teologiaemalta.blogspot.com.br/2013/02/o-cristo-na-plenitude-dos-tempos.html
     Caríssimos amigos e companheiros de Parábolas, tudo bem? Gostaria de dar continuidade à nossa conversa sobre a História da Igreja. Apresentamos uma breve introdução sobre o assunto a alguns dias e você pode ler aqui, se não conseguiu fazê-lo ainda:



     Hoje quero conversar com vocês sobre um conceito muito importante para entendermos a História da Igreja: Plenitudo Temporis. (?) O termo em latim significa Plenitude do Tempo e foi retirado do texto do apóstolo Paulo em sua carta aos Gálatas no capítulo 4 versículo 4:


    O termo em grego no escrito de Paulo para esta palavra é καιρός ou Kairós em português e significa algo como momento oportuno, correto ou supremo¹. Este conceito traz a ideia de que a vinda de Cristo se deu em um determinado tempo e espaço específicos providenciados por Deus quando a humanidade estaria pronta para a chegada do Messias. Nem antes ou depois, Jesus teria que nascer em carne e sangue no tempo e no lugar em que nasceu. Mas espere um pouco. Não parece um tanto quanto óbvio? Deus sabia onde e quando o Messias seria enviado para a salvação da humanidade, certo? Certo eu diria. Agora precisamos investigar o período histórico e a geografia do tempo de Jesus para verificar em que o ambiente do século I e as margens orientais do Mediterrâneo auxiliaram em Seu ministério e na disseminação do cristianismo no início da vida da Igreja cristã no mundo conhecido. Para esta constatação vamos investigar rapidamente as contribuições que três povos deste período ofereceram aos cristãos. O desenvolvimento destas sociedades acabaram contribuindo com o nascente cristianismo que se inicia no livro de Atos e chega até os nossos dias. Os povos que normalmente são estudados neste contexto são os Romanos, os Gregos e os Judeus. Isto porque as mudanças culturais, políticas, intelectuais e religiosas ocorreram com estes grupos.

     O trecho a seguir foi extraído de meu livro sobre História da Igreja, publicado em 2012 pela editora quadrangular que é o material utilizado no Curso Livre de Teologia das igrejas do Evangelho Quadrangular no Brasil inteiro. Este texto está no capítulo 1 da obra.

GREGOS, ROMANOS E JUDEUS

É importante entender que a vinda de Jesus Cristo à Terra se deu em um momento bastante específico e único na História. Caso contrário, a disseminação do cristianismo não atingiria seu objetivo. Os três povos relacionados à vinda de Cristo no ambiente do Primeiro Século foram os romanos, os gregos e os judeus. A junção das três culturas proporcionou o momento e o espaço necessários para que o Evangelho fosse pregado primeiro em Jerusalém, depois na Judeia, Samaria e até os confins da Terra. Estes povos foram importantes para que o cristianismo pudesse ser aceito nos lugares onde foi levado através dos apóstolos e líderes da igreja primitiva. Os gregos contribuíram intelectualmente, os judeus religiosamente e os romanos politicamente.

OS GREGOS






Acesso em 12/12/2012
           
            A contribuição grega à propagação do cristianismo se deu no âmbito intelectual, das idéias. Mesmo conquistados politicamente pelos romanos, foram os gregos, no entanto que influenciaram a cultura e a maneira de pensar dos romanos. Dentre estas contribuições podemos destacar a língua, a filosofia e a religião.

A Língua
Acesso em 29/12/2011

Para que o Evangelho pudesse ser levado e compreendido com um impacto real sobre o mundo conhecido, uma língua que pudesse ser compreendida em diferentes espaços geográficos era fundamental. Mesmo com o fim da ascensão ateniense, por volta do século V a.C., a cultura helenística foi disseminada através das campanhas de Alexandre o Grande entre 338 e 146 a.C. Diferente do grego clássico, este grego, também conhecido como koiné foi aquele que chegou ao tempo de Cristo tanto no ocidente quando no Oriente Médio.
            Para entender a influência e importância do koiné para os tempos dos primeiros cristãos, podemos utilizar a mesma importância do inglês para o nosso tempo. Uma língua internacional utilizada nas transações comerciais, tratados, escritos internacionais como o próprio Novo Testamento viria a ser. É interessante verificar que este foi o alfabeto utilizado para a escrita dos Evangelhos, segundo eruditos como George Milligan e James Hope Moulton, que confirmaram a tese de Adolf Deissman. Eles descrevem o koiné como uma língua comum e conhecida no século primeiro. Esta descoberta auxiliou nas traduções modernas da Bíblia para outros idiomas que ainda não possuíam tradução, na medida em que se os escritos eram acessíveis a um público que não apenas o erudito deveria ser também ser acessível a todos os povos.               Claro está porém que, assim como o inglês em nossos dias que é uma língua conhecida, porém nem todos falam, assim também era com o grego koiné. Apenas os grupos mais eruditos poderiam falar e trabalhar com esta língua como os políticos e comerciantes. A grande parcela da população de vilarejos distantes dos grandes centros não tinham acesso. A contribuição positiva está no fato de que a chegada do discurso poderia ser traduzido para as comunidades locais pois era uma língua falada no mundo conhecido do século Primeiro.

A Filosofia

http://sarauxyz.blogspot.com.br/2015/07/grecia-antiga-filosofia-ciencia-e-arte.html?view=classic

            A filosofia e os escritos dos pensadores gregos trouxeram uma contribuição ao cristianismo bastante interessante. O esforço em explicar o mundo e a natureza através do exercício intelectual colocou em descrédito o sistema politeísta, transformando a própria filosofia grega em uma espécie de religião voltada à reflexão. No tempo de Cristo, a filosofia clássica de autores como Platão, por exemplo, havia se transformado em um sistema de pensamento individualista e egoístico como o Estoicismo e o Epicurismo. Mesmo considerando a existência de um deus ausente, filosófico e inalcançável, este sistema viria a fracassar por não conseguir esclarecer a real necessidade do homem em se aproximar de um Deus pessoal. É importante salientar que a filosofia enfraqueceu de certa forma a maneira como os gregos acreditavam em seus diversos deuses. Isto porém, não acabou com os templos nem com o sistema religioso, que movimentava a economia das cidades onde eles estavam localizados.
            O Cristianismo foi uma resposta para o fracasso da filosofia grega ao responder a todos os questionamentos do ser humano num âmbito mais introspectivo e pessoal.

A Religião

            O culto politeísta dos gregos, como descritos por Homero na Ilíada e na Odisseia, perde sua vitalidade com o avanço da filosofia materialista do século V a.C. A própria filosofia evolui para um sistema pragmático bastante severo. Os epicuristas, por exemplo, baseavam sua doutrina na inexistência do sobrenatural, chegando a considerar a própria alma humana como um desenvolvimento do átomo. Os estoicos, por outro lado, levavam em conta o sobrenatural, porém a divindade estava tão mesclada a natureza que chegava próximo a um panteísmo.

Politeísmo (do grego: Poli, muitos, Théos, deus: muitos deuses) consiste na crença em mais do que uma divindade de gênero masculino, feminino ou indefinido, sendo que cada uma é considerada uma entidade individual e independente com uma personalidade e vontade próprias, governando sobre diversas atividades, áreas, objetos, instituições, elementos naturais e mesmo relações humanas.

Panteísmo é a visão de que o Universo (Natureza) e Deus (divindade) são idênticos. Os panteístas, portanto, não acreditam em um deus criador ou antropomórfico. A palavra deriva das palavras gregas pan (todos) e theos (Deus). Como tal, o Panteísmo denota a idéia de que "Deus" é mais bem interpretado como um processo de relacionamento com o Universo. Embora existam divergências dentro do Panteísmo, as idéias centrais encontradas em quase todas as versões são o Cosmos como uma unidade abrangente e a sacralidade da Natureza

Desta forma, a religião grega e consequentemente a romana, abriram o caminho para o cristianismo, na medida em que destruíram a crença politeísta e a filosofia vazia de significado espiritual facilitou a aceitação dos princípios do cristianismo.

OS ROMANOS


Acesso em 29/12/2011

As contribuições dos romanos no âmbito político criaram condições propícias para a disseminação das ideias do cristianismo. Enumeramos algumas delas:

A Unidade

https://brel.wordpress.com/2006/12/02/mapa-do-imperio-romano-seculo-ii-dc-map/

            
     Nenhum povo conseguiu disseminar de maneira tão clara uma ideia de unidade das sociedades sob uma única legislação. Conforme a lei do império era aplicada todos os dias nos territórios sob a tutela romana, o povo se acostumou a esta legislação política mesmo mantendo as os códigos locais em funcionamento paralelo com as leis de Roma. A concessão do título de cidadania romana a estrangeiros foi outro elemento adicional neste projeto de unidade do mundo mediterrâneo ao entorno de Roma.

Movimentação Livre

            Uma consequência do item anterior, a unidade política dos territórios de Roma, trouxe consigo uma maior facilidade de circulação pelo Império. Antes dos romanos, o mundo mediterrâneo, além do Oriente Próximo eram compostos por diversos territórios governados por líderes independentes e rivais. Isto dificultava a circulação pelos territórios. Com a presença do Império e uma unificação, ao menos teórica, do corpo jurídico, esta dificuldade foi de certa forma superada. Foi assim que Paulo e dos demais apóstolos puderam viajar com facilidade para pregar o Evangelho nos mais diferentes lugares.

Sistema de Estradas

http://pessoas.hsw.uol.com.br/10-momentos-historicos4.htm

            Os romanos desenvolveram um sistema bastante complexo e funcional de estradas. Este sistema partia do chamado marco áureo no Fórum em Roma e chegava até aos centros estratégicos do império. A razão para estas estradas estava na necessidade de enviar tropas de soldados rapidamente até as regiões revoltosas e mesmo demonstrar a eficácia e força de Roma. Os primeiros cristãos utilizaram este sistema de estradas para sua locomoção através do continente, de maneira especial o apóstolo Paulo em suas três viagens missionárias

O Exército

http://www.limes.cat/sense_categoria/24-de-gener-de-41-dc-assassinat-de-caligula/

            Os romanos adotavam a estratégia de utilizar como soldados, habitantes das províncias conquistadas. Desta forma muitos homens entravam em contato mais estreito com a cultura romana e divulgavam as ideias deste novo mundo por onde andavam. Muitos soldados se converteram ao cristianismo e ajudaram a levar os princípios cristãos a distantes localidades em que eram enviados.

A Desilusão religiosa

            A conquista de vários povos pelos romanos, levou a uma desilusão com relação aos deuses destes grupos por não conseguirem protegê-los dos romanos. Quando eram aculturados por Roma, a opção romana também não substituía a necessidade por uma vida mais espiritual. O Culto ao imperador era uma maneira de tornar tangível a presença do governo romano aos súditos do império. Da mesma forma como foi feito com a religião grega, os romanos não conseguiram responder aos anseios dos diversos grupos que compunham sua sociedade. Assim, o cristianismo encontrou um terreno fértil para sua propagação e desenvolvimento.

OS JUDEUS

            Os judeus assim como os romanos e os gregos, contribuíram através da religião, de uma maneira bastante forte na medida em que tanto judeus como cristãos partilham do texto sagrado do Antigo Testamento. Além do texto, outros princípios podem ser analisados brevemente.
  
Monoteísmo

http://estudos.gospelmais.com.br/a-importancia-das-escrituras-do-velho-testamento.html

            Diferente da grande maioria das religiões da antiguidade, o judaísmo possuía uma crença firme em um único Deus. Após o exílio na Babilônia, não temos relatos de que os judeus tenham caído novamente em idolatria. Três séculos antes de Cristo, haviam diversas sinagogas espalhadas pelo mediterrâneo onde de uma forma ou de outra  o monoteísmo era passado à sociedade local. 

Esperança Messiânica

            O Antigo Testamento está repleto de referências, a respeito da vinda do Messias. O Oriente Próximo aguardava pela vinda deste Salvador, quando Jesus Cristo nasceu, Seu mundo estava preparado, pois já conhecia as histórias que os judeus contavam sobre o Salvador.

Sistema Ético

            O padrão ético dos judeus, pautado pelos Dez mandamentos, contrastava muito com os padrões grego e romano de lidar com o pecado. A necessidade em buscar uma verdade interior era muito mais importante que a existência de uma verdade exterior pregada pelos estrangeiros.

Sinagoga

Ruínas da Sinagoga de Cafarnaum do século IV

            As Sinagogas nasceram durante o Exílio da Babilônia. Como não podiam se reunir no Templo de Salomão instituíram lugares onde mantinham sua fé e animavam outros a fazerem o mesmo.

            A junção das três culturas preparou o mundo conhecido para aquilo que a Palavra nos diz a respeito da Plenitude do Tempo. A disseminação foi tão notória que de todas as seitas e organizações politeístas do século primeiro, apenas o judaísmo e cristianismo permaneceram em nossos dias. A partir do próximo texto, vamos falar sobre a Patrística! Fiquem ligados!


Pastor Eduardo Medeiros
 
Notas


1 - Para a filosofia grega, kairós simbolizava a ideia de tempo momentâneo, uma oportunidade ou um período específico para a realização de determinada atividade, por exemplo. Kairós não era entendido como um tempo cronológico, mas sim como um momento no presente ideal para algo. Para a igreja cristã, os termos kairós e cronos são antagônicos no sentido de um significar o "tempo de Deus" (kairós) e o outro o "tempo dos humanos" (cronos). No âmbito religioso, a palavra kairós é utilizada no sentido de "tempo espiritual" ou "o tempo de Deus", que é divergente do conceito cronológico de tempo terrestre, ou seja, as horas, os dias, os anos e etc.O chamado "kairós de Deus" não pode ser medido, pois, de acordo com uma das passagens da Bíblia Cristã: "(...) um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia" (2 Pedro 3:8). Extraído de http://www.significados.com.br/kairos/ Acesso em 24/05/2016.
 

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